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Espanto, calamidade e milagre

O imaginário da chuva na canção popular do nordeste

Sumário

O texto analisa a importância das chuvas como elemento de fantasia que participa da formação da poesia e da canção populares, no sertão do nordeste brasileiro. Assim como a seca, as chuvas também podem representar uma calamidade para o sertanejo. A primeira canção apresentada revela atitudes de passividade, resignação e culpa diante da calamidade da cheia, que é recebida como confirmação de que o sertanejo não soube agradar a Deus. Na segunda, o retirante saúda com alegria a chegada da chuva que lhe permite regressar à sua terra. Nas duas canções seguintes, contemporâneas à nossa época, a fúria das tempestades que inundam o sertão pode ser entendida como uma alegoria da capacidade de luta recalcada do sertanejo.

Tem certas coisas no mundo/ Que eu olho e fico surpreso: Uma nuvem carregada/ Se sustentar com seu peso E dentro de um bolo d’água/ Sair um corisco aceso! (Manoel Chudu)

Para o nordestino do sertão, a chegada da chuva é sempre recebida com espanto. Quando os céus mandam a chuva exata, milagre é ver o chão fecundado e o verde que brota do solo seco da noite para o dia; quando exageram, a chuva é calamidade, água em excesso que o chão empedernido não consegue absorver e alaga as terras, os pastos, as casas. Mas por que o espanto? Por que espantar-se com o regime irregular das chuvas em uma região danificada pela exploração feroz e irresponsável da terra, praticada desde os tempos da colônia, que transformou quase toda a caatinga em deserto?
A chuva parece milagrosa porque representa a renovação da vida em regiões sempre ameaçadas pela morte dita “natural” que a seca traz; parece milagrosa porque é imprevisível; mas sobretudo, porque os agricultores pobres não dispõem de nenhuma medida protetora contra a falta de chuvas. As roças e os animais podem vingar ou morrer longe dos açudes, sem poços artesianos, sem recursos para a irrigação. Um amigo pernambucano me contou que, nos primeiros anos depois que se mudou para o Recife, o pai telefonava a cada novo inverno para anunciar, encantado: “ouça, meu filho, começou a chover!” – e colocava o telefone à janela para que o filho escutasse o gemido manso dos primeiros pingos de chuva ou o clamor da tempestade. O espantoso, a meu ver, não é que chova demais, ou deixe de chover durante meses a fio. A alegria e a esperança trazidas pelas primeiras chuvas que chegam (quando chegam) para trazer vida ao sertão não impedem que nos espantemos com o fato de que o destino do pequeno agricultor que tenta sobreviver de seu trabalho naquelas paragens ainda esteja, literalmente, nas mãos de Deus.
Sigo a indicação de Heloísa Starling e Bruno Martins , para quem “é próprio do compositor popular brasileiro o esforço de inventar ou reinventar tradições”. Na música sertaneja do nordeste, é o tema da seca que está no centro da tradição. A chuva não é tema tão freqüente no imaginário do sertão; a seca, fonte de angústia, desespero, desamparo e desterro, exige permanente simbolização. Da música de Luiz Gonzaga à poesia de João Cabral, das gravuras de Jota Borges à obra de Graciliano Ramos, de Glauber Rocha a Lírio Ferreira e outros cineastas jovens que descobriram o sertão nordestino como cenário ainda inexplorado de uma nova épica brasileira, a seca povoa o imaginário e exige elaboração, respostas estéticas, imagens, pensamento. Mas a chuva é o par antitético da seca e assim como ela, também é encarada como expressão de uma natureza tirana ante a qual o homem nada pode. Também ela, quando vem em excesso, pode ser recebida pelo pequeno agricultor como uma calamidade. No que toca o tema deste seminário, a fantasia de um “milagre” (ou de um castigo, como veremos) com a chegada da chuva remete, tanto quanto a seca, ao desamparo das populações sertanejas, que se consolam invocando as bênçãos de Deus ao se perceberem abandonados por sucessivos governos federais e regionais. Se a água depende das razões insondáveis do “céu”, as políticas de irrigação, represamento de açudes ou escavação de poços, a liberação de recursos para fertilização e conservação do solo viriam – ou então deixam de vir – dos poderes terrenos. A forte religiosidade das populações do campo no Brasil, mais do que alimentar esperanças, tem tido o papel tradicional de promover, em sucessivas gerações, o conformismo e a resignação.

Duas canções piedosas

Eu também to do lado de Jesus/ só que acho que ele se esqueceu/ de dizer que na terra a gente tem/ que arranjar um jeitinho pra viver. (Procissão, de Gilberto Gil)

A produção musical e poética do nordeste em torno dos temas da seca e da chuva não diz respeito tanto à posse da terra quanto ao abandono da região. A voz poética que se pronuncia através dessas canções parece sempre a de um pequeno agricultor que lamenta sua terra seca, seu gado magro, sua plantação ressequida. As canções tecem a fantasia de um sertanejo forte, combatente de sua sobrevivência, que resiste enquanto pode: “só deixo meu Cariri, no último pau de arara ”. Esta imagem, no entanto, não é incompatível com a do retirante derrotado que, ao ver a terra ardente, tem que deixar seu amor e sua terra para trás: “entonce eu disse/ adeus Rosinha/ guarda contigo/ meu coração ”.
Quer se trate da resistência passiva do personagem que não abandona a terra e espera o fim da seca até o limite de suas forças, quer se trate do retirante derrotado e melancólico que vem tentar a sorte no sul, o tom emocional dessas canções inspiradas no drama da seca é de desencanto e fatalismo. Para Walter Benjamin o fatalismo, que está na origem das disposições melancólicas , revela a identificação afetiva dos derrotados com o ponto de vista dos vencedores da história. Mais do que o efeito alienante da ideologia, a adesão afetiva aos vencedores produz, para Benjamin, a acedia, que consiste na falta de vontade e na indolência do coração, somadas ao conjunto de afetos tristes que compõem o quadro da melancolia. Interpretar o flagelo da seca como castigo divino e a chegada das chuvas como sinal da benevolência de Deus ou da intervenção de um santo protetor são duas faces da mesma disposição fatalista. O sertanejo que se percebe como vítima passiva de uma vontade superior está, inconscientemente, dando razão aos vencedores históricos na luta pela terra, na disputa por verbas públicas, no manejo do poder político e dos benefícios dele advindos. A adesão afetiva aos vencedores, no interior do Brasil, desloca o foco do problema contra o qual o homem da terra investe suas últimas forças. Diante dos mistérios insondáveis da natureza, ou da vontade de Deus, o homem enquanto sujeito da ação política torna-se supérfluo; resta ao suplicante humilde pedir a benção de seu “padrinho” Cícero e invocar a proteção de um Deus inclemente que tanto pode se comover com suas orações quanto castiga-lo por ousar pedir demais. Vejam a letra deste pungente choro-canção de autoria Nelinho e Gordurinha.

Súplica Cearense

Oh Deus, perdoa esse pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar.
Oh Deus, será que o Senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda chuva que há.

Meu Deus, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, pra chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão.
Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe
Pois eu acho que a culpa foi
Desse pobre que não sabe fazer oração.

Senhor, desculpe eu encher os meus olhos de água
E pedir todo cheio de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar.
Desculpe, eu pedi a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir pra acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará.

O Deus cruel de Súplica Cearense teria enviado a cheia para castigar o pobre sertanejo que, na sua excessiva humildade, passou todo o verão rezando e a seguir, diante das enchentes do inverno, acusa-se por não saber rezar direito. O que temos aqui, nessa canção tão pungente: uma voz irônica ou o esboço psicológico de um sujeito da enunciação masoquista? Gordurinha, nascido na cidade de Salvador e não no sertão, talvez tenha sido sarcástico ao criar um personagem tão humilde – ou um Deus tão vingativo. A voz poética de Súplica Cearense pede perdão por ter implorado para que Deus apressasse a chegada do inverno: este, enfurecido, mandou “cair toda a chuva que há”. Mas mesmo em seu desespero o personagem criado por Gordurinha não abre mão do terno sentimento de posse que liga o sertanejo ao solo onde nasceu: é “seu”, o Ceará queimado pelo inferno enviado por Deus. O Ceará lhe pertence de coração; por afeto, não por direito. O inferno não se confunde com seu amado sertão calcinado. Meu Cariri, meu Cobocó, meu Ceará, meu boi, meu sertão: retirar-se, forçado, da terra onde nasceu, abandonar um amor ou um pequeno pedaço de chão tornado estéril pela inclemência do clima e pela falta de cuidados, tudo isso faz com que o imaginário sertanejo conserve, como bem notaram Starlig e colaboradores ao comentar a música popular brasileira em geral, “uma profunda nostalgia da roça ”. A literatura de cordel é abundante em referências à nostalgia que o retirante guarda de sua terra natal, da qual saiu para trabalhar no Sudeste, deixando a família para trás. Como neste A carta do sertanejo – rimada por um caipira, de Antonio Teodoro dos Santos : “Puluquera olhe lá, ouça bem tudo o qu’eu falo: si ainda não chuveu/ tudo aí tem só o talo;/ venda o jumento pasto/ e se arrume c’o cavalo!...”

“Puluquera” é o nome da esposa do sertanejo que escreve do interior de São Paulo, saudoso: “Quando eu durmo vocêis tudo/ na minha cabeça passa...”.

Nesta pequena narrativa versejada, a chuva também não foi solução para o flagelo vivido pela família do narrador. “Arricibi sua carta/ a qual passo a respondê:/ aqui agora chuveu/ mas não tem o que come/ pois o corgo do Mocó/ matou até zabelê./ Carregou toda mandioca/ encheu a baxa da Chica/ o fumo ajuntou mosquito/ o arroz deu tiririca; / os tumate do Vicente/ tão inchado chega isticá”.
Estas são as notícias escritas na carta da esposa, e que o narrador reproduz para que o leitor compreenda que a chegada da chuva trouxe ainda mais miséria para a região de onde ele saiu.
Por conta da nostalgia e da separação forçada, o sertão imaginário fica sempre preservado, em potencial, como o paraíso que poderia ter sido, intocado na saudade e na idealização de seus cantores. Sob a terra ardente, sob o Cariri onde não chove no chão, sob o inferno que sempre queimou o Ceará, se esconde a fantasia de um outro sertão: “pois se chover dá de tudo/ fartura tem de porção”. Sob esta cobertura de fantasia restam, recalcados, todos os caminhos terrenos, todas as forças humanas e os projetos políticos que poderiam conduzir à realização deste sertão utópico . A dimensão transformadora do homem está completamente fora do horizonte poético de Súplica Cearense.
A crença firme em um sertão idílico que parece pronto a brotar pelo avesso da mesma terra infernal impede que o nordestino se desespere, em seu exílio compulsório. Mas impede também que ele trabalhe para transformar, efetivamente, as condições de sua vida. No imaginário desse cancioneiro, o sertanejo é um sujeito que está sempre prestes a se retirar, no instante-limite em que a vida se torna impossível; depois, em seu desterro compulsório, não vê a hora de voltar para uma natureza que, depois da chuva, voltará a se apresentar generosa, benfazeja.
Este é o sentimento que está presente no alegre baião cuja letra apresento a seguir.

A volta da asa branca
(Zé Dantas e Luiz Gonzaga)

Já faz três noites que pro norte relampeia
E a asa branca, ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas e voltou pro meu sertão
Ai, ai, eu vou-me embora, vou cuidar da plantação.

A seca fez eu desertar da minha terra
Mas felizmente Deus agora se alembrou
De mandar água pra esse sertão sofredor
Sertão das muié séria, dos home trabalhador.

Rios correndo, as cachoeiras tão zoando
Terra molhada, mato verde, que riqueza
E a asa branca à tarde canta, que beleza,
Ai ai o povo alegre, mais alegre é a natureza.

Sentindo a chuva me recordo de Rosinha
A linda flor do meu sertão pernambucano
E se a safra não atrapalhar meus planos
Que que há, ó seu vigário, vou casar no fim do ano!

Neste baião contagiante, Deus afinal se lembrou do sertão onde as mulheres são sérias (como Ele gosta) e os homens, trabalhadores. Mas de nada adianta a disposição ao trabalho dos homens e a seriedade piedosa das mulheres, na terra castigada pela seca. Por isso o trabalhador de A volta da asa branca “deserta” de sua terra até que a chuva volte. Esta chuva de Gonzaga não é calamidade, não é enchente: é alegria. Em 1947, o poeta invoca e celebra um sertão que hoje já não há mais: rios correndo, mato verde, uma beleza. Maior que a alegria do povo é a que emana da natureza. É esta que lhe permite, afinal, romper com o fatalismo melancólico e fazer planos, mesmo que sejam apenas no âmbito da vida privada: casar no fim do ano com a mais linda flor do sertão pernambucano.
A tonalidade afetiva de A volta da asa branca não é melancólica: a sorte abençoou o sertão, tudo canta, tudo sorri. Mas as condições da melancolia estão presentes na estrutura da canção, pois só a sorte, ou a bondade divina, beneficiaram a vida daquele que agora pode tomar seu destino nas mãos. Precariamente – “se a safra não atrapalhar meus planos”... Ou até a próxima seca atingir a terra que o cantor, carinhosamente, também chama de sua (“a seca fez eu debandar da minha terra”...). Até que a próxima seca volte a destruir tudo o que foi arduamente conquistado.

Duas canções pagãs

Depois de Luiz Gonzaga, outras gerações de compositores e poetas continuaram a alimentar as tradições do sertão nordestino. Aos poucos, a lírica da melancolia foi cedendo lugar a uma poesia mais irônica; o comentário sobre as misérias da seca começa a ser enunciado a partir de certa distância instituída pela própria consciência dos efeitos de linguagem. Algumas referências religiosas vem sendo substituídas por metáforas da violência da vida no sertão. O paraibano Chico César chama seu Catolé do Rocha de “praça de guerra/ onde o homem e o bode berra”, e o pernambucano Chico Science, falecido aos trinta e dois anos em 1997, faz seu maracatu chafurdar na lama do mangue de Recife.
Já no século 21, o grupo “Cordel do fogo encantado” mistura influências tradicionais da música e da poesia populares do nordeste com elementos imaginários inovadores. O compositor e poeta Lirinha, que é também cantor do grupo, retoma o tema da chuva com um espírito anárquico e dionisíaco “Chover” é um maracatu desenfreado , cuja força rítmica e a riqueza da percussão simulam a grandeza da chegada das primeiras tempestades no sertão. As batidas do surdo, das congas, do gonguê e do bombo de macaíba simulam o ribombar a chuva e o estouro dos trovões. A música é a mesma nas duas fases da letra – antes e depois da chuva – e as palavras “chover” e “choveu” são entoadas pelo coro, enquanto a voz de Lirinha reza os outros versos.

Choveu (Invocação para um dia líquido)
Lirinha e Clayton Barros

1. Chover, chover, valei-me Ciço, que posso fazer
Chover, chover, terço pesado pra chuva descer
Chover, chover, até Maria deixou de moer
Chover, chover, banzo, Batista, bagaço e Bangüê.
Chover, chover, cego Aderaldo peleja pra ver
Chover, chover, já que seu olho cansou de chover
Chover, chover, até Maria deixou de moer... etc.
(Falado): Meu povo, não vá embora pela Itapemirim
Pois mesmo perto do fim, o meu sertão tem melhora.
O céu ta parado agora, mais vai dar cada trovão
De escapulir torrão de paredão de tapera. (João Paraibano)

2. Choveu, choveu, Lula Calixto virando Mateus
Choveu, choveu, o bucho cheio de tudo que deu
Choveu, choveu, suor e canseira depois que comeu
Choveu, choveu, zabumba zunindo no colo de Deus.
Choveu, choveu, Inácio e Romano, meu verso e o teu,
Choveu, choveu, água dos olhos que a seca bebeu.
(Falado) Quando chove no sertão, o sol deita e a água rola
O sapo vomita espuma, onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco que a fome pedia esmola. (João Paraibano)

(Refrão) Seu boiadeiro, por aqui choveu (bis),
Choveu que amarrotou,
foi tanta água que meu boi nadou. (Toque pra boiadeiro).

Na composição de Lirinha e Clayton Barros, a cheia tem o sentido poético de uma saturação. Na primeira parte, o sertanejo invoca a chuva: o coro pede incessantemente – “chover, chover” – enquanto o poeta descreve a desgraça da seca. Por causa dela, Maria não tem mais nada que moer. Cego Aderaldo, figura mítica do folclore sertanejo, cansou das lágrimas inúteis a vazar dos olhos que não vêem, mas choram a desgraça de seu povo. O desamparo do nordestino diante da seca é o mesmo que se expressa em Súplica Cearense: diante dela, o que se pode fazer? Rezar um “terço pesado pra chuva descer”... e esperar, sempre. Na voz de Lirinha, os versos de João Paraibano pedem ao povo ainda um pouco mais de paciência, de esperança. A mesma esperança resignada, a mesma fé cega na chuva que ainda há de chegar, abundante. O céu que ainda está parado há de mandar “melhora” para o sertão. Nem que seja uma melhora catastrófica, as paredes das taperas se desmanchando ao estouro dos trovões, os bois atolando no barro ou nadando na correnteza.
Na segunda parte da música, há uma mudança no tempo verbal do verbo chover. Do infinito para o passado, agora já choveu e “Lula Calixto” traz o bucho cheio, sente suor e canseira depois de tudo o que comeu. A fome deu lugar à saciedade: na outra quadra de João Paraibano, a fartura “esconde o saco em que a fome pedia esmola”. O saco da fome, no entanto, continua ligado ao balaio da fartura: na próxima estação, só a esmola salvará o sertanejo de morrer de fome .
A chegada da chuva, mesmo que seja uma tempestade, é uma alegoria festiva. As imagens do sapo que “vomita espuma”, do boi nadador, dos torrões que escapolem das paredes das taperas, não são catastróficas. O poeta não se lamenta do excesso de água, não pede perdão a Deus por uma suposta ofensa que provocou a ira divina e trouxe a cheia para o sertão.
“Invocação para um dia líquido” é poeticamente superior às duas canções anteriores. Aqui, a chuva excessiva funciona como alegoria de uma explosão da força reprimida no imaginário sertanejo. Deus surge apenas como imagem estética da força do trovão, num verso onde a repetição da letra z (“zabumba zunindo no colo de Deus”) invoca a rapidez e o chicotear do relâmpago. A chuva não é benção nem castigo: é fúria e surpresa, tão violenta quanto a seca com a qual contrasta. Em sua enchente que não é de água, é de imagens, Lirinha inclui poetas da tradição sertaneja, como João Paraibano, ou o anônimo toque para boiadeiros – “choveu que amarrotou”... Neste, o boi não se afoga: nada.
Talvez a força desta canção revele que a criação estética é tão potente quanto a ação política no sentido de sacudir os corações tomados pela melancolia e pelo fatalismo. Na criação poética o sujeito também se afirma como criador, tanto de seu destino quanto de um mundo fantástico – e possível – onde os homens possam viver com o bucho cheio de tudo o que a terra deu.
A imagem da tempestade como espetáculo estético tem uma força própria na tradição recuperada (como pedaços de objetos encontrados na correnteza) nas canções de Lirinha. No segundo CD do Cordel do fogo encantado, cujo título é O palhaço do circo sem futuro (2003), há duas canções que evocam este tema. Devastação da calma (ou A Tempestade) e Tempestade (ou A Dança dos Trovões). Em ambas, a descrição da tormenta empresta força estética ao desespero e à fúria, insinuados na voz do cantor que parece dividido entre o desejo da chuva, o medo da destruição, ou entre a atração que lhe provoca a violência da vida e o desejo da paz. Reproduzo a primeira delas.

Devastação da Calma
(Clayton Barros e Cancão)

As nuvens surgiam densas
Por todo lado da serra
Como montanhas suspensas
Com fímbrias da cor da terra
A terrível saraivada
Caía tão arrojada
Parecia um desespero
O zigue-zague em seu jogo
Fingiam cobras de fogo
Brigando no nevoeiro.

Fortes colunas de vento
Vinham desequilibradas
Num grande deslocamento
Em ondas desencontradas
As árvores se retorciam
Línguas de fogo desciam
Com toda brutalidade
Parecendo que fugia
Aos sopros da tempestade.

Este poema é praticamente declamado, com acompanhamento musical ao fundo. O que se segue é cantado.

A Tempestade
(Cordel do Fogo Encantado, Lirinha e Emerson Calado)

Quando o vento bate forte
Que aspira o ar castigado
Estremece o pulmão da seca
Tempestade, tempestade.

Pai, estou nessa terra
Querendo plantar
Querendo colher
Homens do ar não descem
Mulheres do ar não descem
Crianças do ar
Velhos do ar
Sempre mandam recado

É de Relampiê, é de Relampiê, é de Relampiá (domínio popular)

A alma a água o alvo
Pela variação instintiva
Para não virar carvão
Tempestade, tempestade

Pai, estou tão sozinho
Querendo plantar
Querendo comer
Homens do ar não descem (etc).
É de Relampiê (etc).

Se eu pudesse parar os elementos
Se eu pudesse trazer paz ao mau tempo
Mas eu não posso
Não devo
Não quero
Tempestade, tempestade...

. Aqui, escutamos a voz de Lirinha em segundo plano, esforçando-se para se fazer ouvir através do clamor dos instrumentos de percussão que, sempre em ritmo de maracatu, parecem ribombar como os trovões e martelar como os grossos pingos de água sobre telhados de zinco.
Há, em ambas as composições, uma agressividade e como que um desejo de violência: “se eu pudesse trazer paz ao mau tempo/ mas eu não posso/ não devo/ não quero” (grifo meu). Este evoca, a meu ver, a violência recalcada de gerações e gerações de homens, mulheres, crianças e velhos que sofreram passivamente as conseqüências da seca e da cheia, pedindo as bênçãos de Deus e implorando perdão por seus supostos pecados. Homens do ar (e mulheres, e crianças, e velhos do ar) – seriam os mortos buscando redenção? Seriam os antepassados sofridos dos meninos desta nova geração de artistas? Só se sabe que eles “não descem”, mas mandam seu recado. Que recado? No verso seguinte, um coro de vozes libertas repete a expressão de domínio popular, evocando a tradição nordestina: é de relampiê, é de relampiá. O recado é um raio no céu? O outro nome do relâmpago (que “relampeia”) é corisco. É o nome também do personagem de Glauber Rocha, o valente cangaceiro de Deus e o diabo na terra do sol. O mesmo cuja música-tema é a conhecida composição de Sérgio Ricardo:

“Tá contada a minha história, verdade e imaginação,
Eu espero que o senhor tenha tirado a lição
Que assim mal dividido este mundo anda errado
Que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo”.

“Verdade e imaginação”: mais do que em nenhum outro lugar do Brasil, no sertão nordestino a verdade se revela através das obras da imaginação e com elas se confunde. Para René Gardies, estas duas dimensões da realidade formam um par antitético. Par no verdadeiro sentido do termo: unidade dialética, fusão que dá nascimento a uma nova unidade. O pensamento brasileiro é sincrético, próximo do mágico. O conceito não existe fora de sua ganga concreta. A alma brasileira alia poesia e verdade, sonho e realidade. Desconhecer essa característica significa ignorar o fundamento de sua cultura popular .
Às vezes, do seio das nuvens da imaginação – como de dentro do “bolo d’água” do verso do repentista Manoel Chudu, citado na epígrafe deste texto – relampeja um corisco aceso que ilumina toda a realidade com a força de um desejo de transformação. Se alguma possibilidade de redenção se anuncia na “verdade e imaginação” da canção popular produzida no sertão nordestino, esta não virá da bondade de Deus por força de intermediação de frei Damião ou do padre Cícero. Virá, se vier, da determinação popular.
Ao comentar as Teses sobre o conceito de história de Walter Benjamin, o filósofo Michael Löwy escreve que:

O único Messias possível é coletivo: é a própria humanidade, mais precisamente, (...) a humanidade oprimida. Não se trata de esperar o Messias, ou de calcular o dia de sua chegada (...) mas de agir coletivamente. A redenção é uma auto-redenção, cujo equivalente profano pode ser encontrado em Marx: os homens fazem sua própria história, a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores .
Tal emancipação talvez não esteja contida no projeto explícito dos artistas do “Cordel do fogo encantado”. Ainda assim, as canções e os poemas que recolhem, não tanto ao acaso, belíssimos trechos da produção perdida de poetas, cantadores e repentistas, têm o efeito de devolver ao Brasil uma parte de sua melhor tradição. “Homens do ar” não descem na tempestade, mas na retomada criativa da tradição. Neste caminho de volta a força da imaginação da geração atual, renovada pelos inventivos recursos interpretativos de Lirinha e dos percussionistas, soma-se à torrente criativa das gerações passadas e com isso, de certa forma, as redime. Isto porque, retomando ainda o comentário de Löwy, “não haverá redenção para a geração presente se ela fizer pouco caso da reivindicação das vítimas da história”.

Referências biliográficas

ANDRADE, Mário. Dicionário Musical Brasileiro (1929). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1989, p. 305.
BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito de história” (1940) in: _________ Obras Escolhidas São Paulo: Brasiliense, 1989. v.3.
BENJAMIN, Walter. A origem do drama barroco alemão (1925). São Paulo, Brasiliense, 1984.
GARDIES, René. “Glauber Rocha: política, mito e linguagem”
GERBER, Raquel (org). Glauber Rocha. Rio de Janeiro: Paz e Terra 1977. pp. 41-94.
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2006.
SANTOS, Antonio Teodoro. A carta do sertanejo (rimada por um caipira). Santo André: Gráfica Souza, década de 1970.
STARLING, Heloisa; MARTINS, Bruno; MATOSINHOS, Lucas; JOURDAN, Laetitia. Canto do povo de um lugar – A tradição sobre a terra na canção popular urbana brasileira. Universidade Federal de Minas Gerais. Inédito.
TAVARES, Bráulio (org.). II Congresso nacional de violeiros. Campina Grande: Fundação Universidade Regional do Nordeste, 1975.

Canções

BARROS, Clayton e Lirinha: “Chover”, (2000).
BARROS, Claayton e Canção: “Devastação da calma” (2003)
CESAR, Chico: “Beradêro” (1995).
CORDEL do Fogo Encantado, Lirinha e Emerson Calado: “Tempestade” (2003).
GIL, Gilberto: “Procissão”, (1967).
GONZAGA, Luiz: “Asa branca”.
GONZAGA, Luiz. “O retorno da asa branca” (1947).
GORDURINHA e Nelinho: “Súplica Cearense” (p.1930).
SCIENCE, Chico: “Manguetown” (1996).
VENÂNCIO e Corumbá: “O último pau-de-arara”.
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